Talvez algum de vocês conheça este artigo: Escrito por Mike Flores em dezembro de 1998, é um dos (senão o) melhor e mais famoso artigo sobre estratégia de Magic. Publicado originalmente em theDojo.com, o primeiro site de Magic the Gathering do mundo, o site foi à falência em 2000 mas muitos de seus artigos foram salvos por fãs e hoje estão hospedados nos mais variados sites. Mike Flores seguiu sua carreira como deckbuilder, e hoje é considerado um dos melhores do mundo, já tendo escrito artigos sobre deckbuilding até mesmo para a Wizards. Mantenha em mente, todavia, que esse artigo foi escrito em 1998, então as referências à cartas são meio datadas.


O mais comum (e sutil e desastroso) erro que eu vejo no Magic competitivo é no posicionamento de quem é o deck agressivo e quem é o deck de controle numa partida entre dois decks parecidos. O jogador que se posicionar errado será inevitavelmente o perdedor.

Entenda, numa partida entre dois decks do mesmo tipo, a menos que os decks sejam absolutamente iguais, um deles vai ser o agressivo, e o outro o controle. E isso pode ser um dilema muito sério se, digamos, ambos jogadores estiverem usando decks agressivos.

Vou lhe dar um exemplo: No PTQ em Washington, meu colega de equipe Al Tran estava disputando uma vaga no top 8 contra um Sligh1. Al estava jogando com a lista de White Weenie2 criada por Lan D. Ho, um deck normalmente agressivo… Mas não contra o Sligh.

A partida estava empatada 1-1, e o terceiro jogo iria determinar quem ia pro top 8.

O oponente de Al começou e baixou um Jackal Pup. Nesse momento, Al tinha  na mão dois Cursed Scroll, duas Swords to Plowshares, uma Honorable Passage e alguns terrenos. Al decidiu não exilar o Jackal Pup e tomou 2 de dano no primeiro ataque.

Seu oponente baixou outro Jackal Pup. Novamente Al escolheu não usar a Swords to Plowshares, esperando ter mana pra baixa e usar o Cursed Scroll.

Em seu segundo turno, Al jogou o segundo terreno e o Cursed Scroll, ficando com um mana de pé.

No terceiro turno de seu oponente, como você pode imaginar, veio outra Montanha, seguida uma Ball Lightning. Al foi obrigado a exilar a Esfera de Raios. Ele até conseguiu controlar o jogo por mais alguns turnos, mas morreu pro dano direto.

Qual foi o problema aqui? Al tinha um deck agressivo, e planejava causar dano em seu oponente pelos Jackal Pup, fosse bloqueando ou com o Cursed Scroll. Todavia, nessa partida em particular, ele deveria ter jogado como um deck de controle. Veja bem, Sligh é muito mais rápido que White Weenie, então o único jeito do Weenie ganhar seria segurando a velocidade do Sligh no começo do jogo, e depois levando no late game com os Cursed Scroll. Como Sligh também tem Cursed Scroll além de ter magias de dano direto, o único jeito do White Weenie ganhar é mantendo um total de vida decente enquanto ele joga suas próprias cartas.

Por pior que possa parecer você dar quatro pontos de vida para o jogador de Sligh no começo do jogo com os Jackal Pup dele, você viu nesse exemplo que Al terminou dando seis pontos ao invés de quatro por causa da Ball Lightning… E ainda tomou oito de dano dos Pups antes de conseguir controlá-los. Teria sido muito melhor pro Al se ele tivesse jogado as Plowshares nos Pups, Honorable Passage na Ball Lightning e ele entraria no midgame com vinte de vida, começando a botar pressão com seu Cursed Scroll e criaturas como Soltari Priest.

A mesma comparação pode ser feita numa batalha entre dois decks de controle. No mesmo PTQ eu estava jogando de High Tide3 contra o que normalmente seria uma partida difícil pra mim, CounterSliver4. Meu oponente estava usando a lista padrão, com Fractius, Worship, counters e Cursed Scroll. Ele cometeu o erro de se posicionar como deck de controle.

Após fazer um Crystalline Sliver no turno 2, ele fez a Worship dois turnos depois, então eu fiz ele comprar o deck inteiro com Stroke of Genius. Como eu havia matado ele no primeiro jogo com Palinchron, e como eu só mostrei pra ele Disrupt, Force Spike e algumas mágicas de comprar cartas, ele deve ter achado que eu só matava de criaturas.

Mas não importa. Ele se posicionou como o deck de controle quando era claro que eu era o deck de controle. Nós dois tínhamos uma quantidade comparável de counters, mas onde ele tinha Fractius, eu tinha compras e manipulação de deck; onde ele tinha dual lands, eu tinha Thawing Glaciers. Esse terreno garante que eu nunca ia passar um turno sem baixar terreno. O que isso significava é que eu iria indubitavelmente ganhar o jogo se ele fosse pro late game.

Seu trabalho, então, era me matar antes que eu conseguisse matá-lo. A fórmula padrão seria fazer alguns Fractius razoáveis (com dois de poder ou mais), atacar todo turno e deixar mana em pé pra tentar anular qualquer coisa que o oponente fizesse (como uma Wrath of God, Engineered Plague ou nesse caso um combo de High Tide). Em primeiro lugar, ele deveria ter me ameaçado mais agressivamente: um Cristalino sozinho me dá vários turnos comprando cartas e filtrando terrenos na Thawing Glaciers. Em segundo lugar, virar todos os terrenos é pedir pra morrer. Eu nem tive que gastar um Turnabout nele!

Em partidas contra decks do mesmo tipo que o seu, estes são os itens que você precisa avaliar para saber como se posicionar:

  1. Quem causa mais dano? Normalmente ele vai ser o agressivo.
  2. Quem tem mais removal? Normalmente ele vai ser o controle.
  3. Quem tem mais counters e compras? Quase sempre ele vai ser o controle.

Se você é o agressivo, você precisa matar o seu oponente mais rápido do que ele consegue matar você. Se você é o controle, você tem que aguentar as porradas no começo do jogo pra conseguir chegar a uma posição onde você terá card advantage.

Para um exemplo de posicionamento correto entre quem é o agressivo e quem é o controle, basta ver a partida de Sligh vs. Sligh entre Price e Pacifico no top 8 do Nacional de 1998 nos EUA. Apesar dos decks superficialmente serem muito parecidos, existem algumas diferenças importantes em seu design:

O deck de Price tem quatro Cursed Scroll, além de ter Hammer of Bogardan e Fireslinger. Suas únicas criaturas atacantes são Jackal Pup e Ball Lightning – o resto do deck são cartas utilitárias.

Enquanto isso, o deck de Pacifico é muito mais focado em dano… Ele é baseado em atacar usando criaturas com ímpeto ao invés de dano direto. Além de Jackal Pup e Ball Lightning, ele tem Goblin Vandal, Mogg Flunkies, Suq’ata Lancer e Viashino Sandstalker. Além disso, o deck de Pacifico não tem nenhum Fireslinger ou Hammer of Bogardan, e só usa três Cursed Scroll.

Por mais que o deck de Price pudesse ser explosivo no começo, nessa partida ele era o deck de controle, mais preparado pro late game. Em um dos duelos, Price jogou apenas terrenos e Cursed Scroll, sem fazer muito mais coisas. Ele removeu as criaturas de Pacifico com blocks e dano direto, e foi matando aos pouquinhos com o Scroll.

Se Price tivesse tentado bater de frente com Pacifico, ele poderia não ter ganho. Quando os dois jogadores estão simplesmente jogando suas criaturas um no outro, o que tem mais cartas agressivas no deck vai ganhar essa corrida. (Mas como esperávamos, Dave Price, o Rei do Vermelho, sabe jogar de Sligh)

E finalmente, vamos falar da partida de Sligh vs. Suicide Black5. Ambos são decks agressivos muito rápidos. Sligh sempre vence.

Qual deck causa mais dano? Suicide Black. Suas criaturas tem uma ótima relação custo-poder, como Carnophage, Sarcomancy e Flesh Reaver. Às vezes ele usa Hatred. Ele causa dano a si próprio.

Qual deck tem mais remoção? Sligh. Mesmo que o Suicide Black use Cursed Scroll, o Sligh também usa. Além do que, o Sligh tem mais do que criaturinhas, ele tem dano direto.

Apesar de Sligh ser bastante rápido (ele ganha da parede no turno 4), Suicide Black consegue ganhar no turno 2 ou 3 dependendo da lista e dele ter ou não comprado Dark Ritual. Claramente, Suicide Black tem que ser o agressivo e Sligh tem que ser o controle. Todavia, Suicide Black não pode se dar ao luxo de ser agressivo. Ele não consegue baixar suas principais criaturas, como Sarcomancy e Flesh Reaver, por causa da quantidade de dano direto que o Sligh tem. Ele quase nunca pode fazer um Hatred sem correr risco de morrer pra um Lightning Bolt. Então se ele não pode ser agressivo, Suicide Black tem que ser o controle.

Qualquer um que já assistiu essa partida (pelo menos quando o jogador de Sligh começa com uma mão decente) sabe como o Suicide Black se dá bem como controle.

Erro de posicionamento = Derrota.

Após o sideboard, as chances do Suicide Black tradicionalmente melhoram muito. Ao substituir várias cartas que causam dano a si próprio por remoção de criaturas e cartas pra ganhar vida, ele consegue se posicionar adequadamente como controle, e tem uma chance muito melhor (pra não dizer ótima) de vencer.



 

  1. Inventado por Paul Sligh, este é um deck vermelho bastante agressivo, baseado em mágicas de dano direto e criaturas de custo baixo.
  2. Deck branco de criaturas pequenas e eficientes, parecido com o Death and Taxes de hoje
  3. Deck de combo que dura até hoje, mas na época usava outras cartas para terminar o jogo.
  4. Deck de controle que utiliza Fractius de custo baixo para atacar enquanto deixa mana de pé para anular qualquer jogada do oponente
  5. Deck preto ultra agressivo baseado na filosofia que você só precisa ter um ponto de vida pra ganhar o jogo

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2 COMENTÁRIOS

  1. Excelente artigo, pena que eu demorei demais para traduzi-lo e você foi muito mais rápido hahahaha

    Agora vamos ao o que interessa. Fato, o artigo pode ser antigo mas é sem dúvida muito atual. Diversas vezes em jogos eu pude notar a importância de me posicionar como agressivo ou controle, e sim, algumas vezes eu fui bem sucedida, em outras nem tanto. É necessário prática, treino, e principalmente, conhecimento do meta para fazer isso da forma mais adequada.

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