Como vimos na semana passada, a Sega parecia estar caminhando para um renascimento. Apesar do público em geral ter se decepcionado com a falta de DVD no Dreamcast e de ter sido forçada a pagar uma multa à 3dFX por quebra de contrato, o projeto do novo videogame estava terminado, e em 21 de Maio de 1998, tudo parecia estar andando como planejado para o lançamento do Dreamcast em 20 de Novembro.

Em 22 de Setembro de 1998, contudo, a Sega anunciou o primeiro atraso1 do Dreamcast, alegando que Sonic Adventure ia precisar de mais um tempinho pra ficar pronto, e que eles queriam muito lançar o jogo junto com o console. Tudo bem, vai, dá pra esperar um pouquinho. 27 de Novembro, a nova data anunciada, ainda é bem longe do Natal, não vai afetar nada. Em 20 de Outubro começam as pré-vendas do Dreamcast. Em 22 de Outubro, Shoichiro Irimajiri envia uma carta às lojas Shoichiropedindo pra cancelarem as pré-vendas, porque a quantidade de unidades vendidas já está além do que a Sega consegue garantir entregar. Mas peraí, haviam sido vendidas algo como 100,000 unidades! Isso não é exatamente tanto produto assim pra um mercado que costuma medir unidades vendidas em milhões! Começou a ficar evidente que a Sega estava tendo problemas com a produção do videogame. Por ironia, o responsável pelos atrasos era a NEC, fabricante de chips que a Sega escolheu ao invés da 3dFX, que foi pra quem ela pagou aquela multa milionária lá atrás quando se decidiu sobre o design. Em 3 de Novembro, a Sega começou a empurrar pra frente as datas de lançamento dos jogos, e em 19 de Novembro, Shoichiro publica uma carta na Famitsu2 pedindo desculpas formalmente pelos problemas do Dreamcast. O lançamento foi adiado uma semana, mas esse fiasco já havia abalado até a própria Sega: Considerando o dano à sua imagem que esse atraso causou, eles projetaram uma perda de pelo menos 30% sobre as vendas, isso caso eles conseguissem lançar o videogame antes do natal. 27 de Novembro de 1998 foi o dia do lançamento do Dreamcast, com apenas 150,000 unidades, contra um plano original de um milhão de unidades no lançamento. Todas elas foram vendidas no mesmo dia, e só chegaram mais nas lojas no fim de dezembro. Que também esgotaram rapidamente. O tal do Dreamcast era pão quentinho pra qualquer lojista que conseguisse pôr as mãos em um. E a Sony estava assistindo tudo isso, anotando os problemas e os erros que a Sega cometeu para não sofrer com os mesmos.

Em março de 1999, a Sony começa3 o marketing do Playstation 2, e isso é um problemão pra Sega, que além de ter quase um terço do market share da Sony, ainda não consegue fabricar tantos videogames quanto os consumidores querem comprar. Quando a Sony anuncia que o Playstation 2 será compatível com os jogos do Playstation original, as vendas da Sega dão uma brecada violenta. É hora de levar o Dreamcast para outros países.

playstation
A campanha de Marketing da Sony mostrava o quanto ninguém se importa com propagandas que façam sentido…

 

Ao mesmo tempo que a Sega se preparava pra lançar o branquelinho nos EUA, uma redução de preço no Japão criou uma nova demanda pelo Dreamcast que fez ele ultrapassar o N64 nas vendas, colocando ele de volta no segundo lugar da venda de consoles. Soul Calibur estava pra sair, e todo mundo estava babando pelo jogo. As pré vendas nos EUA estavam se aproximando da casa das 200 mil unidades, e a essa altura do campeonato a Sega já conseguiua produzir Dreamcast à vontade. E Bernie Stolar saiu da empresa. Pera, como? Pois é. Não consigo achar nenhuma fonte confiável que diga POR QUÊ Stolar saiu da Sega, nem se ele saiu por conta própria ou mandaram ele sair, mas fato é que no momento crítico do lançamento do Dreamcast, o responsável saiu da empresa. E os seus dois vice presidentes também. Começaram aí os probleminhas do Dreamcast. Pior do que entrar no bonde andando e querer sentar na janelinha é entrar num bonde andando e alguém te informa “Olha, tem um lugar ali na janela pra você”. O Dreamcast teve uma série de problemas bobos de distribuição, como jogos que não funcionavam sendo entregues nas lojas, dificuldade de encontrar os VMUs (memory cards) e a jogatina online sendo adiada “pelo menos até 2000″. O público e a mídia estavam começando a pegar pesado no fato do Dreamcast não rodar DVDs. Na Tokyo Game Show de 2000, uma coisa ficou dolorosamente clara: Todas as empresas grandes haviam “pausado” o desenvolvimento de jogos de Dreamcast para focar no Playstation 2. Ainda assim, a Sega não estava indo mau. O Dreamcast era o console mais vendido nos EUA no Natal de 1999. Mesmo que não estivessem saindo jogos novos, os jogos antigos ainda estavam vendendo furiosamente bem.

E daí que alguém ouviu da boca de Isao Okawa que a Sega iria desistir de consoles após o Dreamcast e iria focar apenas em jogos. Mas quem é esse Isao Okawa? Um desses nerds random que parece ter bola de cristal em casa e passa o dia todo no Facebook prevendo que a Apple vai comprar a Nintendo? Quase isso. Okawa era apenas o presidente do Conselho Diretor da Sega. Então dá pra entender porque os acionistas e parceiros comerciais da Sega ficaram com o pé meio atrás, por mais que todo mundo do departamento de Marketing jurasse de pés juntos que a Sega ia seguir firme e forte. Claro, não fazia sentido o chefe do presidente da Sega estar falando de sair do mercado de consoles após o melhor ano que a Sega teve na década! Dizem as más línguas que houveram uns cifrões da Microsoft e da Sony afetando as decisões do Okawa, mas claro, tudo isso é mero boato infundado.

Chegou então o lançamento do PS2! Cara, o PS2 fazia tudo que o Dreamcast fazia com metade do esforço e uma verba de marketing muito maior. O fato dele reproduzir filmes em DVD fez dele um estardalhaço de vendas no Japão. Muitos “seguistas” ainda esperavam ansiosamente por uma queda de preço no Dreamcast dreamcastspara dar uma turbinada nas vendas, mas fato é que a Sega simplesmente não tinha dinheiro pra reduzir o preço do Dreamcast! “Mas a Sega não tava vendendo MONTES de Dreamcasts?” Estava. Mas como é de praxe com consoles de videogame (e falarei disso no futuro), a Sega lucrava aproximadamente um dólar com cada Dreamcast vendido. O grosso da grana vinha da venda de jogos, mas como a Sega desenvolvia por si própria a maioria dos jogos, ela acabava comendo muito da margem de lucro, já que ela tinha que bancar toda a equipe de desenvolvimento ao invés de simplesmente receber uma fatia do licenciamento. A recusa da Sega de baixar o preço do Dreamcast mesmo com o PS2 nas lojas foi interpretada pelo mercado como uma atitude arrogante, como quem diz “O PS2 não nos afeta.” O resultado foi que a mídia especializada publicou matéria atrás de matéria explicando todas as razões pelas quais o PS2 era um videogame melhor que o Dreamcast, ainda que fosse mais difícil de programar. A Sega então baixou o preço dos JOGOS do Dreamcast, onde ainda dava pra diminuir a margem de lucro, mas isso deu início a boatos de que ela estaria desesperada, e logo logo faliria e seus jogos viriam para o PS2. Ou seja, não importava o que a Sega fizesse, a mídia caía matando, e o Departamento de Marketing da Sony degolava.

Para o desespero de Peter Moore (que foi promovido de Diretor de Marketing pra Presidente da Sega of America), a Sony fazia coisas como incentivar seus estúdios parceiros a falar mal da Sega em entrevistas. A EA Games famosamente disse pouco após o lançamento do PS2 “Dreamcast? O Dreamcast não será um participante na nova guerra de consoles.” Como uma última tentativa de segurar o mercado que a Sony estava tomando, a Sega ofereceu então Dreamcasts grátis para quem assinasse4 a Sega.net por um ano e meio! E essa iniciativa também não deu em nada.

No fim de maio de 2000, Shoichiro Irimajiri pede demissão do cargo de presidente da Sega of Japan, tomando para si a culpa da empresa ter fechado o terceiro ano consecutivo no vermelho. Isao Okawa assumiu então a presidência da Sega, e oficializou aquele boato de que a Sega não venderia mais consoles. As ações da Sega caíram mais de 40% com esse anúncio, e ficaram ainda pior quando foram publicados os números do Dreamcast para os acionistas. Mesmo estando continuamente esgotado nas lojas, sendo difícil de encontrar, venerado pelos desenvolvedores e com muitos jogos bons, o Dreamcast havia vendido em seus dois anos de vida 10,6 milhões de unidades, enquanto o PS2, por exemplo, vendeu quase um milhão no primeiro fim de semana que foi às lojas (e quase 190 milhões entre 2000 e 2009)

No fim das contas, o Dreamcast morreu pela Sega não ter capital para mantê-lo boiando, após queimar tantas pontes. Se ele tivesse um drive de DVD, se ele não tivesse atrasado na fabricação, se eles tivessem conseguido colocar os jogos online no ar, se eles conseguissem manter o fluxo de lançamento de jogos de qualidade, se eles tivessem conseguido suporte de third parties… Mas todos estes “se” são uns “se” bem grandes… No fim das contas, restou apenas o aprendizado de como não cuidar de seu departamento de hardware. Com o passar dos anos, a Sega lançou vários títulos para os sistemas de seus antigos rivais, mas após perderem tanta gente talentosa ao longo dos anos de má gestão, não conseguiu se manter nesse mercado, finalmente anunciando que vai se retirar do mercado de jogos de console para focar em jogos de PC e celular.

O que, você não sabia? Pois é, olha a data dos links.

Adeus, Sega.

Deixará saudades.



 

  1. Página 300 do link
  2. A Famitsu é uma famosa revista japonesa de videogames, conhecida pelo rigor que aplica nas reviews dos jogos. Como é uma revista impressa e em japonês, não achei útil pra ninguém incluir um scan aqui.
  3. Página 18
  4. Página 4

1 COMENTÁRIO

  1. É triste saber disso, pois a sega teve nas mãos a chance de se consolidar e ser uma das lideres de mercado de consoles até hj…imagina um jogo como Shenmue gráficos de PS 4…so me resta torcer pelos remakes! Até mais…

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