Ahhhh, bitagem. Até hoje tem nego que divide videogames em 8 bit, 16 bit, 32 bit, 64 bit e 128 bit. Curiosamente, o tipo de pessoa que faz isso costuma ser absolutamente incapaz de definir o que exatamente é um bit e o que eles fazem nos jogos!

Um pouquinho de história

Esse lance de “bitagem” começou com o Mega Drive. Em 15 de Julho de 1983, foram lançados no Japão o Famicom da Nintendo e o SG-1000 da Sega. Como sabemos, o Famicom foi lançado na Europa, América e Austrália com o nome de Nintendo Entertainment System (NES), nosso querido Nintendinho, um sucesso estrondoso de vendas no mundo inteiro, salvou os Estados Unidos do crash dos videogames em 1983. Enquanto isso, o SG-1000… bem… não tem necessidade de chutar quem tá caído, né? Em 1985, a Sega tentou desbancar a Nintendo com o Master System (Chamado Sega Mark III no Japão), um console tecnologicamente superior, com um processador mais rápido, mais RAM e capacidade de fazer sprites maiores e mostrar mais delas na tela ao mesmo tempo… E no mundo inteiro, exceto no Brasil, o Master System nem mesmo arranhou a dominância do NES. Num artigo futuro eu explico o porque do Brasil ser essa exceção.

Passam-se mais alguns anos, e a Sega tá desesperada. Poucas empresas sequer desenvolvem jogos para o Mark III, e muitas das que fazem só fazem porcaria! A empresa tá sendo sustentada por seus jogos de fliperama, que usam a placa Sega System 16, com 16 bits de cores, lançada no mesmo ano do Mark III, mas não consegue entrar na casa de seus clientes… Espera aí… 16 bits de cores? Já sei!

Videogame de maior sucesso da Sega
Não só tem 16-Bit, como eles são DOURADOS. Obviamente isso importa.

Em 1988, foi lançado o Sega Mega Drive, com 16 bits e Blast Processing! O que é Blast Processing? Ninguém sabia na época e ninguém sabe até hoje! E do que importa 16 bit? Não sei, mas se não fosse importante, não estaria estampado em cima do console, estaria?

O departamento de Marketing foi à loucura com essa diferença, criando slogans comoGenesis Does What Nintendon’t (Mega Drive faz o que Nintendo não faz) e se esforçando pra apresentar o Mega Drive como a alternativa mais radical ao NES, que faz mais coisas que o Nintendinho, que tem mais cores, jogos mais longos, som melhor, jogos melhores, parece fliperama, lava louça, passa a roupa, e por aí vai. E tudo isso era explicado como possível pelo fato do Mega Drive ter 16-bit, enquanto o Nintendinho só tinha 8. Tadinho do nintendinho. A Nintendo, claro, não podia ficar calada, e em 1990, lança o Super Famicom, que, olha só, TAMBÉM tem 16 bits, e apesar de não ter Blast Processing, mantinha o Selo Nintendo de Qualidade, o que era muito interessante para os pais (que eram quem comprava os videogames, afinal.)

Pouco tempo depois, em 1993, a Atari chegou com os dois pés no peito dessa historinha de bit: lança o Atari Jaguar, que tem SESSENTA E QUATRO BITS! Uau! Os jogos devem ser muito melhores, né? Poxa, tem 64 Bits! Só vantagem! Era quase o mesmo preço do SNES, e o slogan era Do The Math!(Faça as Contas), pra ficar bem claro que era só fazer as contas pra ver que ele era matematicamente quatro vezes melhor do que o Mega Drive e o SNES. Caraca, ele já era melhor até do que o recém lançado 3DO, que custava quase o triplo do SNES por causa da sua tecnologia avançada de 32-bits.

Alguém por acaso lembra de algum jogo do Jaguar? Alguém já viu um pessoalmente? Digo, fora do zoológico?

Não? Oh.

Bom, o importante é que ele era o melhor console dos anos 90, porque ele tem 64 bits, e o departamento de marketing NUNCA mentiria para os consumidores, certo?

Mais Bits = Melhor Jogo?

Esse conceito é tão errado que devia doer. Pra começar o papo, lembra como era boa aquela placa de fliperama, o Sega System 16? Pois bem, o processador do Sega System 16 era o Motorola 68000 (processador de 16 bit), com um Zilog Z80 (8 bit) cuidando do som. Sabe que outras placas usavam estes exatos mesmos processadores? Neo Geo, CPS-1 e CPS-2. Ou seja, Altered Beast, Street Fighter 2, King of Fighters 98 e Marvel vs. Capcom tem a mesma “bitagem”. E não acho que ninguém vai olhar esses 4 jogos e achar que eles foram lançados na mesma geração.

Não é só o número de bits que importa, e sim quão bem sabe-se programar o videogame em questão.
Avaliando esta imagem minuciosamente, pode-se perceber que existem algumas diferenças tecnológicas.

Outro exemplo simpático? Tanto o Atari 2600, o NES e o Game Boy Color tinham processadores de 8 bits. Pois é, River Raid, Super Mario Bros e Pokémon Crystal tem a mesma “bitagem”. (O Atari tinha 8 bits? Sim, uma pesquisa rápida revela que processadores de 4 bits não servem nem pra calculadoras.)

Enquanto isso, temos amplos exemplos de videogames que tentaram ganhar vantagem na “corrida de bits”, e a maioria deu de cara no chão. Jaguar. 3DO. CD-i. Sega 32x. Turbografx CD. Jaguar CD. Diabos, poderia-se argumentar que até o Nintendo 64 entra nessa lambada. E antes que a horda enfurecida derrube a porta aqui, deixe-me explicar: O N64 até tinha uma CPU de 64 bits. Uma versão vagabunda e barateada de uma CPU de 64 bits, mas tinha. Agora, quantos dos jogos dele usavam 64 bits? Respondo essa pergunta com outra pergunta: Quantos jogos do N64 são impossíveis de se emular num computador com Windows 7 32 bit? Pois é. Você pode rodar um programa de 32 bit num processador de 64 bit, mas nunca o oposto. E não, não existe uma “conversão rápida e automática” nas roms do N64!

Ah, mas se isso de bits fosse tudo balela, as empresas não continuariam fazendo processadores melhores!”

Elas continuam, mas “processador melhor” não é a mesma coisa de “mais bits”. Diabos, o PS3 foi lançado com processador de 32 bit! Veja nos computadores, por exemplo: TODOS os processadores entre o 386 e o Pentium 4 eram de 32-bits, e perceba o quanto os jogos avançaram entre 1985 e 2000.

Mas Baramallo, não é só o processador que faz a diferença nos jogos, é o computador inteiro!

Ah, não brinca, cê jura?! Isso não é só pra computador! A velocidade do processador, a quantidade de memória RAM e a capacidade da placa de vídeo influenciam MUITO mais no resultado final do que a “bitagem” do processador!

Então Bit não existe?

Existe. Só não importa tanto quanto o departamento de Marketing diz que importa. A quantidade de bits no processador diz respeito (basicamente) à quanta informação ele consegue processar de uma vez só. E a velocidade dele, quantos blocos de informação desse tamanho ele consegue processar por segundo. Como eu disse anteriormente, o Mega Drive e o Neo Geo tinham, ambos, um processador de 16 bit. Mas o do Mega Drive funcionava a 7.6 MHz e o do Neo Geo a 12MHz ( 1 MHz = um milhão de operações por segundo). Tecnicamente, esse processador do Neo Geo funciona tão bem quanto um processador que tivesse 32-bit e funcionasse a 6MHz, exceto que esse de 32-bit usaria muito menos energia elétrica e esquentaria muito menos.  Então o que importa é a velocidade? Não só. O SNES, por exemplo, rodava a quase 22MHz, e o Jaguar tinha dois núcleos de 32-bits rodando a quase 27MHz cada. O que não adianta de pitombas se a sua equipe de programação não consegue aproveitar tudo isso. E isso não é demérito à equipe de programação: Tecnologia demora mais tempo pra ser desenvolvida do que pra ser vendida.

Street Racer, jogo de lançamento do videogame Atari 2600
O supra sumo da tecnologia de games dos anos 70.

Quando saiu o Atari 2600, em 1977, não existia ninguém no mundo capaz de fazer algo que rodasse em um aparelho economicamente viável pra uso doméstico e que fosse muito mais complexo do que Street Racer . Quando saiu Pokemon Crystal, em 2000, aquele cara que programou Street Racer já teve tempo de casar, ter filho e ensinar o filho a programar. Então a galera que fez Pokemon tinha muito menos limitações do que a galera que fez Street Racer, além de muito mais regalias na forma de equipamentos melhores, condições melhores, prazos maiores, equipes maiores e por aí vai. Algo parecido aconteceu com o Nintendo 64: A Nintendo até podia exigir que os programadores fizessem uso de tudo que o console tinha a oferecer, mas iria acontecer o que aconteceu com o Jaguar: Nego ia passar meses (se não anos) tentando conseguir usar tudo aquilo, enquanto os concorrentes iriam continuar lançando o feijão com arroz de sempre. Então, melhor deixar o pessoal fazer o que sabe fazer!

Mas e aí, como eu chamo?

Já fazem anos que se referir à toda uma geração de consoles como “geração 16 bit” é uma ótima razão pra ignorar o resto do que o sujeito está escrevendo. Em grandes sites e fóruns pela internet afora, o que os grandes autores fazem é se referir diretamente à geração do console. Dessa forma, fica claro de que época você está falando, e como vimos, a época do lançamento do console é o que mais afeta o que ele pode ou não fazer. Com exceção do Dreamcast, nenhum console foi DRASTICAMENTE superior à seus contemporâneos (e há gente que coloque o Dreamcast na mesma geração que o GameCube e Playstation 2 por causa disso). E esta é justamente a razão pela qual eu não coloco aqui uma lista bem definida de quais consoles são de qual  geração: não existe um sólido consenso. Digo, todos concordam que o Magnavox Odissey é de primeira geração e que estamos atualmente no meio da oitava geração. Mas como um mesmo videogame tem datas de lançamento distintas em partes diferentes do globo, fica difícil precisar de que geração o videogame é. Por exemplo, quando o Master System foi lançado no Brasil (4 de Setembro de 1989), fazia quase um mês que o Mega Drive havia sido lançado nos EUA, e quase um ano no Japão. Mas caso forem considerados apenas os videogames famosos dos grandes fabricantes, fica fácil separar as gerações:

  • Primeira Geração: Magnavox Odissey e Pong
  • Segunda Geração: Atari 2600
  • Terceira Geração: NES e Master System
  • Quarta Geração: SNES e Mega Drive
  • Quinta Geração: Nintendo 64, Sega Saturn e Playstation
  • Sexta Geração: Game Cube, Dreamcast, Playstation 2 e Xbox
  • Sétima Geração: Wii, Playstation 3 e Xbox 360
  • Oitava Geração: Wii U, Playstation 4 e Xbox One

E pronto! Ao invés de chamar o Playstation de “32 bit”, chame-o de “quinta geração”. Assim você está sendo claro quanto à época que você está se referindo, e não parece um analfabeto digital. Mesmo porque nós já passamos do que a mídia generalizada chamava de “Geração 16-Bit”a tanto tempo que se a gente fosse usar a mesma lógica e nomenclatura, os videogames atuais seriam da “Geração 512-Bit”, e dizer que um processador tem 512 bit é tão ridículo que até um participante do BBB acharia esquisito.

edit: O artigo originalmente dizia que o Xbox 360 também foi lançado com um processador de 32bit, mas como o João Cláudio Fidelis do Canal 3 me chamou a atenção, ele usa uma cpu Xenon de 64bit. Falha nossa!

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1 COMENTÁRIO

  1. Artigo muito bom, e só faltou aquela parte do “Carol escrevi pra você, ta lá o artigo que eu falei que faria especialmente em sua homenagem” hahahaha

    Agora eu entendi, e aprendi 😉

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