Respondam-me algo, colegas comandantes: Vocês querem ganhar TODAS as partidas de Commander que jogam? Não estou falando somente de partidas em campeonatos, ou somente de partidas que depois de um tempo, restou um único oponente. Me refiro à toda vez que você senta com mais três amigos (ou mais) pra jogar um EDH. Pensa bem antes de responder. Se a resposta for “sim”, das duas uma: ou você não tem problemas nenhum de jogar contra decks que fazem combo infinito no turno três, ou você joga com um deck que faz combo infinito no turno três. De uma forma ou de outra, as pessoas não devem te convidar muito pra jogar, né?

Nunca se esqueça que Commander é um formato social. Em qualquer grupo de jogo, se tem um cara que sempre ganha o jogo, ele vai sair do grupo. Simplesmente porque chega um ponto em que o desafio torna-se frustração. E falando nisso, nada é mais frustrante do que ter um deck muito mais caro que o seu oponente. Claro, o primeiro jogo você ganha de lavada. O segundo também. E o terceiro, e o quarto, e o quinto, e eventualmente você começa a se perguntar se você não tem nada de mais interessante pra fazer do que continuar jogando com esse cara.

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NINGUÉM vai se divertir nesse jogo. Okay, talvez os espectadores. Mas com certeza, nenhum dos jogadores.

 

Claro, tudo isso voa pela janela se você está jogando em algum tipo de torneio, mas estamos falando aqui do deck de sempre, o deck pra jogar com os amigos na camaradagem. Estamos falando do que Jason Alt chama de um deck 75%. A ideia é razoavelmente simples: Ninguém quer ter um deck muito melhor que seus oponentes, e menos ainda um deck muito pior que os seus oponentes, mas na maior parte das vezes, você não sabe quem serão seus oponentes. Então, ao invés de fazer o seu deck o melhor possível, mire em deixá-lo com 75% da capacidade: ao invés de você colocar no deck as melhores cartas possíveis, se permita colocar alternativas temáticas ou mais baratas sempre que possível, e use cartas cuja eficiência dependa de seus oponentes. Eu consigo ver daqui a sua cara de espanto ao ler um artigo que diga pra você não fazer o melhor deck que você conseguir, mas me dê uma chance de explicar!

A primeira e mais pragmática vantagem do deck 75% é o preço das cartas. Num deck 100% você usaria Rampant Growth, Nature’s Lore, Farseek e Three Visits. Num deck 75%, você não vai colocar Three Visits, e você acabou de economizar uns cem reais. Pra fazer o deck 100%, o melhor possível, o chutador de bundas, você precisa de redundância: é a mesma razão pela qual você coloca 4 da mesma carta num deck Standard, Modern ou Legacy, você precisa que aquela carta venha na sua mão. No Commander competitivo, mesma coisa. Você não pode ter várias da mesma carta, mas pode ter várias cartas com o mesmo efeito. E sempre que você pesquisar todas as cartas com um efeito X, vai ter uma delas que custa uma fortuna. Ravages of War. Capture of Jingzhou. Imperial Seal. E às vezes, simplesmente existe uma versão pior da carta que custa muito menos dinheiro, como usar Diabolic Tutor ao invés de Demonic Tutor.

A segunda é a competitividade do deck, e essa é a mais difícil de atingir: a ideia básica do deck 75% é que se você jogar com alguém com um deck pior que o seu, o jogo não vai ser uma vitória automática pra você, e ao mesmo tempo, se você jogar com alguém que está usando um deck 100%, a vitória não será automaticamente dele. Cartas que dependem de seu oponente não são boas em jogo competitivo: afinal, num jogo competitivo você não pode se dar ao luxo de depender de nada do seu oponente. Num deck 75%, por outro lado, isso é ideal. Veja Bribery, por exemplo: Você joga a carta e vai avaliar o deck do oponente. Se a melhor criatura que tem lá é um Ashen Rider, provavelmente o resto do deck vai sofrer pra lidar com ele, mas você não vai atropelar o cara de uma vez só. Agora, se a melhor criatura no deck dele é uma Iona, Shield of Emeria, provavelmente esse camarada investiu mais no deck e a pancadaria continua.

A terceira é a minha favorita: Montar um deck 75% te permite, com muita facilidade, seguir um tema! Quer fazer um deck de Fractius? Em quinze segundos vai aparecer alguém falando “Ain, deck de cinco cores, você pode colocar Conflux, Kiki-Jiki e Pestermite e combar infinito!” vão passar mais vinte segundos e alguém vai dizer “Ow, porque tu não coloca Natural Order e Progenitus nesse deck?” Trinta segundos depois, vai aparecer alguém dizendo “Cara, tu devia colocar Parallax Tide, Parallax Wave, Parallax Nexus, Stifle, Trickbind e Voidslime!” e você poderá encher o pulmão pra dizer “NÃO, isso é um deck de Fractius!” sem ficar se preocupando com a melhor combinação de cartas possível! O desafio é você escolher um tema e se ater à ele. Saber escolher o que combina ou não no tema escolhido. Tá montando um baralho de Fractius? Olha, eu acho que Fauna Shaman não rola, ela é boa mas não é fractius. Survival of the Fittest, por outro lado, é encantamento, tem problema nenhum, mas é MUITO caro. E aí, qual você escolhe? Ou você não escolhe nenhum? Cê que sabe, mano, o deck é seu! O importante não é se ele tá bom ou se ele tá ruim, o importante foi que você fez e tá se divertindo com ele. E isso não vale só pra Fractius, vale pra qualquer tribo: Espíritos, Esquilos, Tritões, Homáridas, Samurais, o que der na sua telha.

Porque no fim das contas, essa é a coisa que importa: esse é o seu deck. Eu não acho que fazer decks competitivos seja uma coisa ruim. Todo mundo deveria ter pelo menos um deck 100%, sangue nos olhos, que trata Commander como Vintage. Mas esse deck você vai usar de vez em nunca, em eventos, ou quando surgir um desafio interessante. A maior parte do tempo, o objetivo num jogo de Commander não é ganhar, é se divertir em grupo. Ou você vai me dizer que a única coisa que importa naquela partida de três horas de duração é quem terminou o jogo com um ou mais ponto de vida, e dane-se todas as jogadas, as intrigas, as alianças e as traições que aconteceram? O deck 75% estimula esses jogos: um jogo longo e cheio de reviravoltas. Tem um novato no grupo? O cara acabou de comprar um pré montado? Pega nada, dá pra jogar. Chegou um cara novo na loja, tu não faz ideia do poder de luta do deck dele? Pega nada, chama pra mesa. Apareceu aquele cara super competitivo, aquele que só quer saber da vitória? Tudo bem, chama ele! Com um pouco de sorte e diplomacia o resto da mesa ensina humildade ao rapaz! E talvez você não goste de jogos assim, talvez você goste de combar e acabar no quarto turno e ir fazer outra coisa, talvez você ache perda de tempo ficar a tarde inteira jogando uma única partida de Commander e enfraquecer o seu deck propositalmente pra que o jogo seja mais desafiador. Eu lhe digo: divirta-se! Encontre mais pessoas que jogam assim e seja feliz jogando com elas! No final das contas, isso continua sendo apenas um jogo, que a gente joga pra relaxar!

Exceto nos paralelos de Commander do GP SP, lá eu vou levar um deck pra arregaçar a boca do balão que eu não quero saber de fazer amigos, quero saber é de ganhar!

 

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