Na semana passada eu concluí o meu artigo dizendo que, em jogos de mesão, Grave Pact é melhor que Vindicate. Se você não leu e está curioso pra saber que tipo de argumento leva uma pessoa a chegar numa conclusão dessas, leia o artigo aqui! Se você leu e veio aqui para me dar uma chance de provar que eu não bebo enquanto escrevo bebo antes de escrever  bebo minto, vamos em frente!

Pra entender o problema de Vindicate no mesão, precisamos entender o conceito de Card Advantage, que eu vou chamar de Vantagem em Cartas: a ideia básica é que quem tem mais cartas está em uma situação melhor no jogo. Isso não é tão difícil de entender. Quem tem mais cartas tem mais respostas, mais criaturas, mais possibilidades de fazer alguma coisa. O ponto é como você faz pra obter essa vantagem. Isso é mais fácil de explicar em termos práticos: imagine que estamos jogando eu e você, eu conjuro uma Blanchwood Armor no Aura Gnarlid que havia invocado no turno passado e, quando vou atacar, você joga um Murder nele.

img1

Percebe que você usou uma única carta para se livrar de duas das minhas? Isso é a vantagem em cartas, o famoso “dois por um” que se fala nas lojas. A ideia é que, se toda carta que você jogar resolver duas ou três das minhas, logo vamos chegar num ponto em que eu não tenho nada na mesa e nada na mão, enquanto você ainda terá umas duas ou três cartas na mão e, se uma delas for uma criatura, eu corro um sério risco de vida.

A vantagem em cartas nem sempre envolve cartas na mesa e nem sempre envolve você estragar uma jogada minha. Digamos, por exemplo, que no próximo turno do jogo acima você baixe um terreno e fiquemos equilibrados: nós dois temos quatro terrenos básicos e três cartas na mão de cada um. Você passa o turno pra mim e eu jogo Harmonize. Agora, você tem três cartas na mão e eu tenho sete (eu comprei a carta do turno) – o jogo que estava bem equilibrado agora está pendendo a meu favor: se eu usar uma carta pra me livrar de cada uma das suas, eu ainda terei três quando a sua mão acabar.

Esse é o resumo da Vantagem em Cartas: tanto você quanto seu oponente compram uma carta por turno mas, se você comprar mais cartas que ele ou se você conseguir fazer com que ele desperdice cartas, você terá uma significativa vantagem nas jogadas.

“Ah, mas se for assim, não é só Vindicate que é ruim. Swords to Plowshares é ruim, Counterspell é ruim, Lightning Bolt é péssimo, porque talvez nem tire a criatura!”

Calma, padawan. Trocar seis por meia dúzia, ou seja, gastar uma de suas cartas pra tirar uma das minhas, é bom. Gastar uma das suas pra tirar duas ou mais das minhas é estupidamente bom. Gastar duas das suas pra tirar uma das minhas pode ser bom. Vantagem em cartas é bom, é forte, é importante pra ganhar o jogo, mas não é tudo. O maior exemplo disso é Force of Will: você gasta duas cartas de sua mão pra tirar uma da minha. Daí temos que avaliar qual foi a minha carta que você tirou: se era uma Fireball de 40 de dano, ou você gastava essas duas cartas ou perdia o jogo. Se era uma Faithless Looting, eu acho que você fez uma má escolha…

Até esse momento, muita gente que joga Commander Francês estava bocejando e assistindo vídeo no YouTube, porque esses conceitos são bem difundidos nas mesas de campeonato. A coisa fica diferente quando você coloca mais jogadores na mesa: Vamos refazer os exemplos anteriores, mas ao invés de estarmos jogando eu e você, estamos jogando eu, você, o Gyodai e o Mallanders. Mas eles estão na deles, só fazendo “mana vai”. Lembra de quando você gastou uma carta pra tirar duas minhas? Então, você gastou uma, eu perdi duas, o Gyodai e o Mallanders perderam e gastaram zero. E lembra quando eu comprei três? Meus oponentes também compraram três: você comprou uma, o Gyodai uma e o Mallanders uma. Se eu e você continuarmos nos batendo, um dos dois vai morrer e o que ficou vivo vai estar com os recursos gastos olhando pra dois oponentes que estão com a mão cheia, a mesa cheia e os terrenos de pé.

Numa mesa com quatro jogadores, pra cada carta que você compra, seus oponentes compram três. Cada carta que você gasta pra ferrar com um único oponente deixa de ferrar com os outros dois. Ainda que tirar duas cartas com uma só seja muito bom em um duelo, não é sequer digno de nota num mesão. Em um duelo, você pode sim avaliar a eficácia de suas jogadas só pela vantagem em cartas que ela gera. Num mesão, você precisa avaliar o nível das ameaças que estão na mesa. Em outras palavras, se você gastou o seu Murder pra matar o meu Aura Gnarlid encantado com a Blanchwood Armor e deixou de tirar o Phyrexian Obliterator do Mallanders e o Dawn Elemental do Gyodai, me entregue as chaves do carro porque você não está na menor condição de dirigir.

Isso não quer dizer que a carta usada pra tirar uma única carta (chamada de Spot Removal, ou Remoção Precisa) seja uma carta ruim no mesão. Como no exemplo da Force of Will lá em cima, às vezes a escolha é entre perder vantagem em cartas ou perder o jogo. Tudo que eu falei aí em cima mostra porque Path to Exile seria uma carta ruim no mesão. Ela só dá um alvo e, ao fazer isso, ela ajuda os seus outros oponentes. E de quebra, ela ainda troca a carta exilada por um terreno, então nem gera vantagem em cartas! Mas às vezes tem um Blightsteel Colossus atacando você e nada disso importa mais. Por esta razão, Vindicate não é ruim: ele tira qualquer coisa da mesa, consequentemente te livrando de qualquer pepino. Mas o fato dele ser feitiço complica a sua versatilidade: se você der um Vindicate no meu Wurmcoil Engine novinho que nunca bateu em ninguém, eu não sei em quem eu IA bater, mas eu sei que agora vai ser em você. True-Name Nemesis? Legal, você vai escolher um jogador e matar esse jogador, depois vai ter uma carta inútil contra os outros dois que estão na mesa.Thoughtseize? Num mesão? Tá de sacanagem, né? Você vai gastar uma carta da sua mão e dois de vida pra que todos os jogadores tenham a mesma informação que você sobre a mão de um dos oponentes? E a carta que você fez ele descartar? A menos que seja um True-Name Nemesis, ela seria tão ruim pra seus outros oponentes quanto pra você!

Grave Pact, por outro lado, pune todos os oponentes igualmente e faz com que eles tenham um apreço todo especial pelas suas criaturas. Claro, ela é muito menos versátil que um Vindicate, mas tem muito mais valor ao longo do jogo.

Perceba agora a forma como estes fatos se relacionam ao jogo de mesão: quanto menos cartas você jogar, maior a sua vantagem em cartas e, quando você efetivamente jogar alguma carta, é melhor que ela afete todos os oponentes. As cartas que afetam todos os jogadores geralmente custam mais mana, mas isso não costuma ser um problema, porque você passou o jogo inteiro até agora juntando mana sem fazer muitas outras coisas. E essa, meu amigo, é a razão para jogos multiplayer serem demorados e cheios de mágicas de custo alto. Não é porque o jogador de mesão está aproveitando para jogar as cartas que não funcionam nos duelos. É porque não é a vantagem em cartas que vai determinar a melhor jogada possível e sim o nível de ameaça. Usar Vindicate num Werebear é gastar recursos pra ajudar seus oponentes, mas quando alguém finalmente fizer um Ulamog, the Infinite Gyre, está na hora de aplicar aquela Merciless Eviction pra garantir que o alvo não será você.

É importante você ter efeitos instantâneos pra resolver qualquer problema que apareceu na última hora, mas em 95% dos casos, Draining Whelk será melhor que Counterspell, Wrath of God será melhor que Swords to Plowshares, Blasphemous Act será melhor do que Lightning Bolt, Vorinclex, Voice of Hunger será melhor que Tarmogoyf e Sepulchral Primordial será melhor que Exhume.

Artigos Relacionados

SEM COMENTÁRIOS

Deixe sua Resposta